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«Não se deve querer fazer uma vez mais aquilo que a Natureza já fez perfeito. Não se deve querer parecer verdadeiro pela imitação das coisas.»
George Braque in «Cahiers de G. Braque»
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quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Boletim - Outubro 2020

62 º Encontro Urban Sketchers Açores

               

No passado dia 24 de outubro realizou-se no Museu do Tabaco da Maia o 62º Encontro dos Urban Sketchers Açores. Cumprindo todas as regras de segurança impostas pela situação de pandemia em que se vive atualmente, o grupo reuniu-se mais uma vez com o intuito de desenhar vivências e partilhar experiências.     

A Fábrica de Tabaco da Maia, considerada uma das mais antigas da ilha de São Miguel, laborou na freguesia da Maia entre 1871 e 1988. Esta fábrica foi fundada por Manuel Bento de Sousa, tendo os seus filhos e netos dado continuidade à sua obra, por morte do seu fundador. A partir dos anos 80, e devido à concorrência por parte de outras empresas do sector bem como ao fraco investimento que, nos últimos anos, se tinha vindo a fazer na fábrica, esta começa a entrar numa fase de declínio, fechando as suas portas em 1988. A estrutura dos edifícios dissociou-se das respetivas funções mas permaneceu viva a memória dos processos técnicos da produção agrária e industrial do tabaco. Desta forma, a Fábrica de Tabaco da Maia, para além de ser um marco insubstituível da memória coletiva da Comunidade Local é, também, um elemento fortemente caracterizador e identificativo para todos aqueles que visitam a Zona Oriental do Concelho da Ribeira Grande. Tudo isto nos foi contado no local pela amável Madalena que nos fez uma visita guiada ao Museu. Tendo como pano de fundo um sol maravilhoso a lembrar que o verão ainda não partiu totalmente, até ao tom dourado das folhas, ao verde imenso dos campos férteis, fomos acolhidos num ambiente de relíquias que nos fizeram voltar ao passado, ao mesmo tempo que vivíamos o presente sob o aroma do tabaco e das ervas aromáticas também ali plantadas.

Visitamos os diferentes compartimentos do museu, desde a tipografia, à receção ( que antigamente funcionava como antigo refeitório das senhoras que ali trabalhavam), à sala de secagem, etc.

Peças antigas e recuperadas de um valor imenso. Valor material e sentimental, pois transmitem vivências de um povo dedicado ao cultivo do tabaco e produção do mesmo.

A Maia e o seu povo foram desde sempre pessoas dedicadas à terra. Dotadas pela mãe natureza de uma grande fertilidade souberam sempre tirar proveito da mesma. Freguesia com vida, com cultura, com vontade de perdurar ao longo dos tempos.

Os sketchers deliciaram-se com muitos momentos para desenhar. Uma viagem feita em poucas horas a muitos anos de distância. É esta a magia de desenhar no momento, no sítio.

No final como sempre a foto de grupo. Todos de máscara como se impõe como medida de segurança, alguém ao meu lado comentava “porque estou a sorrir se estamos com máscara? “ao que respondi “acho que estamos todos a sorrir “ E que bom que assim é! Temos de sorrir sempre! Mesmo com máscara. Porque são os olhos o espelho da alma. E quem sorri transmite para os olhos. E estávamos felizes por estarmos mais uma vez juntos e a desenhar.

 

Ponta Delgada, 27 de outubro de 2020.

Ana Cristina Arruda

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Boletim - Março 2020

(a)Riscar o Património 7ªed. -“Património e Educação”| 61 Encontro Urban Sketchers Açores
26 de setembro Tecelagem "O Linho"

Realizou-se no passado dia 26 de setembro na Tecelagem “ O Linho “ na Lombinha da Maia, a 7ª edição do (a) Riscar o Património este ano subordinado ao tema “ Património e Educação “

Com o ar puro e fresco da costa Norte e com uma vista deslumbrante como pano de fundo, fomos amavelmente recebidos pela artesã D. Lurdes Lindo.

Fizeram também as “honras da casa “a representante do Museu Carlos Machado, Bruna Roque, e Alexandra Baptista como “anfitriã “dos Urban Sketchers Açores- São Miguel.

Um pequeno mundo de grandes vivências, muita arte e trabalho na Tecelagem “O Linho”.

Foi-nos feito um breve resumo sobre a história do linho. A cultura do linho na ilha remonta hà largos séculos. Já Gaspar Frutuoso nas suas crónicas relatava que antes do sec. XVII a costa norte era uma terra muito fértil em linho, em especial o mourisco.

Era usado na confeção de peças de vestuário e agasalho, bem como para utensílios de cozinha.

A D. Lurdes e o marido puseram mãos á obra e demonstraram como se trabalha com os teares. Uma verdadeira obra de arte. Linhas encruzilhadas, tons diferentes, desenhos imaginados pelos artistas fazem surgir peças maravilhosas.

Parece uma melodia o som dos pedais e das caixas que compõem os teares. Uma ginástica de braços e pernas, um trabalho árduo, mas compensador.

Um museu de peças, instrumentos e histórias.

Ao olhar uma peça destas não temos a noção do trabalho e tempo que são dispensados até atingir o produto final. D. Lurdes repetia várias vezes: “poucas pessoas percebem e valorizam o trabalho da tecelagem “.

Fica o convite para visitarem este lugar maravilhoso. Viver estas vivências, sentir o cheiro do linho e desfrutar de um regresso quase que a um passado que felizmente continua muito presente e com vontade de perdurar.

O Grupos dos USK , cumprindo todas as regras de segurança estava encantado. Por estarem juntos, por desenharem e por passarem para o papel para registo futuro todo o trabalho destes dois artesãos na costa norte desta ilha verde maravilhosa que se juntou aos participantes para “rabiscar” o desenho, em dia de (a) riscar o património.

Ana Cristina Arruda

 

segunda-feira, 9 de março de 2020

Boletim - Março 2020

59 Encontro Urban Sketchers Açores 07 de Março Fábrica de Chá da Gorreana

Finalmente, no passado dia 7 de março, os Urbansketchers Açores  regressaram, à Fábrica de chá da Gorreana, uma produtora de chá de primeira classe e de reconhecimento internacional. A visita foi dirigida por Pedro Pascoal de Melo. Para além da formação académica, o nosso anfitrião tem desenvolvidotrabalhos relacionados com a história do chá nos Açores, nomeadamente sobre as fábricas da Mafoma e Gorreana.
A Gorreana enquanto plantação, fábrica e museu, é o local idilico para degustar uma chávena de chá ao mesmo tempo que se pode apreciar as máquinas Marshall originais datadas de 1840 ainda em funcionamento na fábrica. 
A visita guiada serviu de incentivo e para "abrir o apetite" aos sketchers ali presentes. Possuidor de grandes conhecimentos o " nosso guia" explicava com sabedoria a história da fábrica e da plantação do chá nos Açores. Entretanto, já se sentiam os cadernos e as tintas a trabalhar. havia muito a desenhar.
Um autêntico museu vivo. Imponentes máquinas com mais de 100 anos de trabalho. Todo o processo de elaboração do chá foi nos explicado, com o aroma do chá a perfumar todo o ambiente.
As paisagens verdejantes, uma vista de cortar a respiração envolviam os presentes que desejavam registar todos os momentos.
Um pormenor muito interessante, e que por coincidência parecia juntar-se ás comemorações do dia da mulher (dia 8 de março) é o facto da fábrica da Gorreana ter estado sempre em mãos de mulheres. conseguimos ver uma marca disto, através de uma gravação em pedra numa das paredes laterais da fábrica, com as iniciais de HPGC 1898 (Hermelinda Pacheco Gago da Câmara). Hoje em dia são as irmãs Madalena e Sara Motta que comandam os destinos da Gorreana, um ex-libris de São Miguel e dos Açores. A mais antiga ,e atualmente única, plantação de chá da Europa, Cultiva-se este produto maravilhoso desde 1883 mantendo desde então as tradições originais do oriente e as qualidades ancestrais há já 5 gerações familiares.
Não há turista que não tenha no seu roteiro a visita à fabrica e a degustação de um aromático chá.
Nós residentes, fazemos da Gorreana quase uma segunda casa. Todo o ambiente acolhedor, o aroma, a paisagem e a paz são como "nossos familiares". Um cenário único, um prazer único, um sabor único, numa ilha verde, cheia de plantações de chá, de trilhos e cascata que envolvem toda aquela zona digna de um paraíso terrestre.


Ana Cristina Zeferino Arruda

segunda-feira, 2 de março de 2020

Boletim - Março 2020

58 Encontro Urban Sketchers Açores 29 de Fevereiro Museu militar dos Açores - a água no quotidiano do exército
No último dia do mês de fevereiro realizou-se mais um encontro dos urban sketchers Açores. O museu militar dos Açores foi o local escolhido para mais uma vez se reunir o grupo (bastante numeroso) para desenhar no sitio. Foi no âmbito da Rede de Museus e coleções visitáveis que ocorreu o primeiro de vários encontros, que visa - em estreita colaboração com o Museu Militar dos Açores - um modelo de exposição coletiva que ficará patente ao público de maio a outubro de 2020 no Forte de São Brás. O tema "Agua no quotidiano do exército" serviu de ponto de partida para a amável receção por parte do recente diretor do referido museu, Tenente Coronel Luís Rato.
O elemento Água está presente nas nossas vidas, no nosso dia a dia. O próprio corpo humano é constituído por grande percentagem de água. É um bem essencial que devemos preservar. Desde a higiene à alimentação a água faz parte do nosso quotidiano bem como do exército, como podemos perceber na nossa visita ao Forte de São Brás. Fomos conduzidos à praça das armas onde se encontra uma cisterna feita pelos espanhóis numa zona que antes era rocha, mas que a necessidade de ter água para subsistência levou a que ali fosse construída.
Podemos dizer que é um ex libris da referida praça, daí que seja intenção do museu arranja-la para que futuramente seja visitável. É provavelmente das poucas existentes nos Açores com esta dimensão. Mais de 10 metros de profundidade e de acesso um pouco precário não assustou os presentes que com o seu caderno lá desceram para desenhar. Enquanto os mais intimidados procuravam água para registar. O tema era esse e havia que o fazer. Não faltou água, o mar, o nosso atlântico ali tão perto. Quase se pode dizer que o Forte de São Brás está rodeado de mar por todos os lados. O cheiro a maresia, os barcos de pesca e o vento marítimo alimentavam as mentes dos desenhadores que se inspiravam naquelas janelas e nas ameias de braços abertos para o infinito, para todo aquele meio que nos envolve. Nós ilhéus, vivemos de e para a água. O mar embalou a água que nos acolheu no seu colo ao som da melodia dos romeiros que entoavam a Ave Maria. Cenário único num dia síngular que terminou com imensos desenhos dos urban sketchers Açores.

59 Encontro Urban Sketchers Açores 07 de Março Fábrica de Chá da Gorreana

Finalmente, no passado dia 7 de março, os Urbansketchers Açores  regressaram, à Fábrica de chá da Gorreana, uma produtora de chá de primeira classe e de reconhecimento internacional. A visita foi dirigida por Pedro Pascoal de Melo. Para além da formação académica, o nosso anfitrião tem desenvolvidotrabalhos relacionados com a história do chá nos Açores, nomeadamente sobre as fábricas da Mafoma e Gorreana.
A Gorreana enquanto plantação, fábrica e museu, é o local idilico para degustar uma chávena de chá ao mesmo tempo que se pode apreciar as máquinas Marshall originais datadas de 1840 ainda em funcionamento na fábrica. 
A visita guiada serviu de incentivo e para "abrir o apetite" aos sketchers ali presentes. Possuidor de grandes conhecimentos o " nosso guia" explicava com sabedoria a história da fábrica e da plantação do chá nos Açores. Entretanto, já se sentiam os cadernos e as tintas a trabalhar. havia muito a desenhar.
Um autêntico museu vivo. Imponentes máquinas com mais de 100 anos de trabalho. Todo o processo de elaboração do chá foi nos explicado, com o aroma do chá a perfumar todo o ambiente.
As paisagens verdejantes, uma vista de cortar a respiração envolviam os presentes que desejavam registar todos os momentos.
Um pormenor muito interessante, e que por coincidência parecia juntar-se ás comemorações do dia da mulher (dia 8 de março) é o facto da fábrica da Gorreana ter estado sempre em mãos de mulheres. conseguimos ver uma marca disto, através de uma gravação em pedra numa das paredes laterais da fábrica, com as iniciais de HPGC 1898 (Hermelinda Pacheco Gago da Câmara). Hoje em dia são as irmãs Madalena e Sara Motta que comandam os destinos da Gorreana, um ex-libris de São Miguel e dos Açores. A mais antiga ,e atualmente única, plantação de chá da Europa, Cultiva-se este produto maravilhoso desde 1883 mantendo desde então as tradições originais do oriente e as qualidades ancestrais há já 5 gerações familiares.
Não há turista que não tenha no seu roteiro a visita à fabrica e a degustação de um aromático chá.
Nós residentes, fazemos da Gorreana quase uma segunda casa. Todo o ambiente acolhedor, o aroma, a paisagem e a paz são como "nossos familiares". Um cenário único, um prazer único, um sabor único, numa ilha verde, cheia de plantações de chá, de trilhos e cascata que envolvem toda aquela zona digna de um paraíso terrestre.


Ana Cristina Zeferino Arruda

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Boletim de Janeiro 2020



O Grupo Urban Sketchers Açores deu as boas vindas ao ano de 2020 da melhor maneira possível. A pintar, a riscar, a desenhar, a escrever.
Na parte norte da ilha de São Miguel, num recanto “ escondido” de uma das ruas da Vila de Capelas existe a Oficina Museu aberta há mais de 21 anos sob as cuidadosas e carinhosas mãos do Professor Manuel João.
O anfitrião recebeu-nos com a simpatia que o caracteriza e fez as honras da casa.  E era em casa que nos sentíamos. A casa de “outros tempos” – do nosso passado presente, do nosso “hoje”.
Para nos completar e orientar nesse 1º Encontro do ano tivemos o Urban Sketcher Nacional Bernardim Casaca (Valter Pratas) que com os seus conhecimentos académicos e de artista nos deu umas “pistas”. Licenciou-se em Belas Artes no Porto- Pintura, fez Erasmus e depois de concluída a sua formação dedicou-se a outro ramo na sua vida profissional. Em 2014 volta a pintar. Embora não faça vida das artes, respira e vive o desenho, essencialmente o “ desenho técnico” com base nos seus conhecimentos académicos.
Falou-nos da esferográfica das 4 cores. Do desafio entre as cores na mesma caneta, partindo do mais claro para o mais escuro. A figura humana é um grande desafio para ele.
Feitas as apresentações o grupo constituído por bastantes elementos começou a dispersar-se, a visitar e a ficar encantado com o Museu. Muitos já conheciam, outros não.
Em todos os rostos via-se um olhar atento, admirado e saudosista.
Ao entrarmos naquele espaço fizemos rapidamente uma viagem ao passado.
Um corredor claro ladeado de muita luz natural com exposição de presépios de lapinha,  quadros de escama de peixe e registos do santo Cristo são o ponto de partida para a “grande viagem”.
E como ainda vivemos a época natalícia, mais concretamente a festa dos Reis, um presépio tradicional com cheiro a tangerina e com o verde do trigo e da ervilhaca lembra-nos as nossas tradições e os presépios antigos.
Mais uns pequenos passos e a grande aventura começa. Abre-se um espaço a lembrar uma praça com muitas lojas/espaços típicos do nosso passado, do nosso imaginário.
Passado-presente-futuro- uma trilogia que nos acompanhou sempre na nossa visita. Passado por recordarmos o que já vimos e vivemos na nossa infância, presente porque estivemos a vivê-lo agora, e queremos senti-lo de novo e futuro porque queremos e devemos transmitir aos nossos descendentes memórias, valores e tradições ali retratados.
Autênticas ruas estreitas com os números de porta e identificação correspondente.
Começamos pelo sapateiro. Figura muito usada para arranjo de sapatos. Máquinas antigas, moldes de sapatos, tudo parece vivo. Impera o cheiro a lustre tão característico.
Ao lado entramos na tipografia.  Apesar das máquinas antigas estarem paradas, o silêncio delas transforma-se num trabalhar a um ritmo veloz.  Parece que se estão a imprimir jornais e a tinta das letras ainda está fresca. Jornais, tipografias da nossa infância já desaparecidos estão lá presentes e na nossa memória também.
Mais uns pequenos paços e entramos no latoeiro. Formas em ferro variadas, guarda-chuvas, tudo era arranjado e aproveitado.
O cheiro a barro convida-nos a entrar na olaria. Loiças, bonecos de presépio, tudo em cima da bancada feita com uma perfeição de mãos de artesão.
A loja das tradições é um autêntico deslumbramento. Contempla todos os gostos , todos os nossos encantos. Coleções de tudo e para todos desde barcos, latas, presépios, bandeiras, esferográficas, etc.
E como parecia adivinhar-se a hora de almoço, o relógio presente numa das ruas convidava-nos a entrar na cozinha. A cozinha dos nossos avós. Que saudades. A simplicidade das coisas era tão bela. Tudo parecia ter um cheiro tão saudável, tão genuíno. O forno de lenha, o banco corrido de madeira, as loiças, a toalha xadrez. Conseguimos ver, sentir e cheirar o ontem, ali no momento.
Mesmo encostado a taberna onde se juntavam os homens em volta de um balcão de madeira, e sentados em bancos de madeira de roda de pequenas mesas a jogar às cartas. Muito cigarros, bebidas variadas, Um misto de cheiros e sabores.
E como também no passado os nossos avós e os nossos pais se preocupavam com o seu visual, encontramos uma barbearia com cadeiras antigas e lâminas, e as modistas e alfaiates com os seus figurinos, tecidos e chapéus. Tudo feito à medida. Tudo personalizado.
Na oficina de tecelagem faziam-se e ainda se fazem as mantas, os tapetes coloridos. Trabalham-se as lãs.
Viramos para outra rua e ao olhar para a esquerda encontramos um pequeno quintal com plantas e galinhas a cantar. Paramos e pensamos. Isto é mesmo real. Não é um sonho. E era bonito de se ver. Cada sketcher num canto a pintar. Cada qual se identificava com um recanto e passava para o papel os sentimentos.
Mas a viagem ainda ia a meio. Muito comércio por visitar.
Duas lojas completavam-se ao virar da esquina- o ferreiro- muitas ferramentas, ferros de engomar, tudo tão velho como o sinal dos tempos. Tudo com tanta vida. E daí que aparece a liquidadora- a second hand-nome em inglês que hoje em dia teimamos em usar. Nomes que não são nossos. De tudo à venda. Relíquias antigas. Oratórios, cómodas, estátuas, quadros.
O cheiro a papel pairava no ar. A encadernação de cadernos, livros e jornais. Um piano antigo num dos largos parecia tocar sozinho melodias do nosso tempo.
Mais uma simbiose de cheiros confundia-nos a memória. Por um lado, a farmácia com cheiro a medicamentos feitos mesmo ali nos laboratórios. Frascos de todas as medidas, aparelhos de raio x, balanças.
Por outro lado o cheiro vinha da barraca de frutas e hortaliças frescas, bem como a mercearia exibia produtos já desaparecidos ou substituídos por outros mais elaborados e modernos.
O tic tac da relojoaria dos relógios parados no tempo pareciam todos em orquestra trabalhar para os visitantes. E ouvia-se música. Da boa e antiga. Na loja dos instrumentos musicais, registada numa fotos da máquina Kodak.


O tempo da escola é um dos momentos mais marcantes da nossa infância. Desde o preparar a entrada, com a ida à papelaria. A sala de aulas com paredes cobertas de mapas de Portugal e do corpo humano, sob a proteção de um crucifixo e a presença imponente de fotografias dos políticos da época.
O Povo açoriano é conhecido por ser muito religioso. O império mesmo no fundo da rua com a bandeira e coroa do Espirito Santo abençoava os presentes, bem como um altar de Santos desde São Isidoro, a São João, Santa Clara nos protegiam e nos convidavam a voltar sempre. E  é isso que fizemos hoje e vamos fazer sempre. Voltar sempre ao passado, às nossos memórias e tradições. Aclamar as saudades com o nosso presente e com o olhar no nosso futuro.
Feliz Ano Novo para todos os Sketchers com muitos desenhos.



Ana Cristina Arruda©
Boletim USkP Açores| janeiro 2020

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

54º encontro de desenho em cadernos | Urban Sketchers Açores Desenhar na Torre de Controlo de espaço Aéreo- NAV


26/10/2019

54º encontro de desenho em cadernos | Urban Sketchers Açores Desenhar na Torre de Controlo de espaço Aéreo- NAV

Debaixo de um olhar cinzento abraçado por nuvens assopradas de um vento atlântico a dar as boas vindas à tempestade tropical “Pablo” fomos amavelmente recebidos com honras de casa pelo chefe do Controle de espaço Aéreo- NAV.

Ainda um pouco ensonados, estado próprio de uma tão desejada manhã de sábado, em que o físico e o psíquico já tanto anseiam por um bom descanso após uma semana de trabalho, fomos convidados a subir quatro escadas até chegarmos à tal sala. A sala onde tudo se passa, onde se faz o controlo aéreo das partidas e chegadas.
O sentimento, atrevo-me a dizer foi unânime entre os muitos participantes. “Uau “que vista. Um olhar e uma perspetiva única sobre toda a pista. Como fundo de pano sempre o nosso mar. Hoje com uma cor mais cinzenta a combinar com as nuvens, mas como sempre uma pintura digna de um grande artista. Vislumbra-se igualmente parte da cidade que muito cresceu para os arredores com construções modernas. Lá ao longe conseguimos alcançar duas imponentes araucárias e alguns montes verdes a lembrar que estamos na ilha. Aqui temos mesmo a noção de sermos ilhéus. Uma pequena porção de terra rodeada de mar por todos os lados.
Com muita atenção e paciência o nosso anfitrião explicou-nos o conteúdo e funcionamento da torre.
Parecia que eramos personagens de um filme sobre aviação.

Todo o teto repleto de réplicas de aviões pequenos, simbolizando a Sata, TAP, Rynair, entre outras companhias.



Uma sala repleta de tecnologia com muitos ecrãs, mapas, computadores, luzes, bússolas, etc.
Um trabalho de equipa geralmente com dois funcionários, divididos por três turnos.
O inglês ouve-se entre as comunicações estabelecidas com a torre e os comandantes.
A adrenalina é uma constante entre essas quatro paredes. No verão, em especial nos últimos dois anos, o intenso tráfego aéreo, e no inverno as adversidades atmosféricas. Sempre atentados e preocupados com a segurança de todos.
Ao longe, e já com algum nevoeiro a abater-se sobre a pista e a chuva a marcar a sua presença, vê-se uma Sata (a mais pequena) a aproximar-se à pista. Cá de cima a sensação é outra.
Até parece que estamos a ajudar o avião, a dar-lhe uma mão.
O aeroporto é um espaço único e marcante na vida de todos nós, em especial dos ilhéus. O avião é o meio mais usado para podermos sair do “nosso cativeiro” para o exterior.
É a porta de entrada e saída para o mundo. Quem não tem histórias para contar/recordar do aeroporto?
Chegadas e partidas dos nossos emigrantes e familiares. Lágrimas e abraços de alegria no momento de chegada, transformadas em tristeza e saudade no momento do adeus.
E é assim a vida. Como um aeroporto.
Feito de chegadas e partidas, de alegrias e tristezas, de lágrimas e sorrisos.
É uma viagem nos céus que ora estão azuis ou cinzentos, mas que acaba sempre por levar a uma aterragem que se deseja que seja segura e serena.


Desenhos: Pedro Arruda | Texto: Ana Cristina Arruda

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

(a) Riscar o Património

(a)Riscar o Património
Jardim Botânico José do Canto- Artes, Património e Lazer

Comemorou-se no dia 28 de setembro mais um (a) Riscar o Património. Uma iniciativa dos Urban Sketchers Portugal conjuntamente com a Direção Geral do Património Cultural, Urban Sketchers Açores e Fundação  José do Canto.
O anfitrião foi o imponente Jardim José do Canto, mesmo no coração da cidade de Ponta Delgada. Debaixo de um calor ardente e humidade tão caraterística das nossa ilhas, fomos amavelmente recebidos por um elemento da Fundação José do Canto.
Um jardim que posso dizer que foi “ o jardim da minha infância”. Tive o privilégio de nascer e crescer a dois minutos do referido monumento natural.

Infelizmente nos anos 80 o jardim esteve ao abandono, o que por um lado facilitava o acesso ao mesmo. Muitas foram as vezes que juntamente com os meus irmãos e vizinhos brinquei por entre as majestosas árvores e caminhos abandonados, num labirinto de risadas e corridas, escondendo gargalhadas e alegrias por detrás dos largos troncos.
Também recordo com saudade o “meu querido pai” com o nosso pastor alemão de seu nome “conselheiro” que tantos passeios ali davam.
Depois de uma breve viagem ao passado, voltamos ao presente….
José do canto nasceu em 1820 e casou com uma jovem prima de famílias abastadas da ilha do Faial.
Desde sempre se interessou pelas árvores, agricultura e cultura do chá.
Começamos com uma breve visita à Ermida de Sant´Ana. Pequena, simples, mas bela. Outrora usada para cerimónias fúnebres. No mês de julho comemorava-se a festa de Sant Ana, com procissão, bazar e comes e bebes.
Era uma festa de vizinhança. Como posso não regressar de novo ao passado??
Continuando a navegar no dia de hoje, fomos visitando o jardim por entre espécies raras e majestosas que nos abriam os braços num misto de boas vindas e simpatia pelo grupo que atarefado preparava o papel e o pincel para começarem a “desenhar o património “. O Grande PATRIMÓNIO que José do Canto nos deixou. O legado que temos de amar e cuidar. Espécies vindas da Europa e Estados Unidos, algumas delas plantadas pelo próprio José do Canto .
Cantinho reservado a espécies endémicas em homenagem aos Açores . Logo ali, vizinho um recanto de bambu a dar um toque oriental ao som da melodia dos passarinhos que por ali habitam
Paragem obrigatória junto à majestosa estátua de José do Canto. Altiva figura com um livro debaixo do braço direito e com um olhar projetado para o futuro. Olhando para a minha rua. A rua do Frias que fica mesmo em frente ao jardim. E lá voltei ao passado….
De realçar que este monumento foi uma homenagem de Augusto Ataíde no ano de 1950.
E fomos andando e devagando por entre árvores centenárias num misto de verdes que nos transmitem uma esperança de uma ambiente saudável, numa altura em que se fala tanto do clima e das suas consequência para o nosso bem estar e sobrevivência.
Que hajam muitos “José do Canto” e que saibamos aprender com a experiência e legado que nos deixou como herança.
O roseiral colorido alegrava o nosso percurso até que chegamos à zona do Palácio, sem antes vermos a estufa que hoje é utilizada apenas para eventos sociais e que outrora era usada para plantios.

Chegava a hora de almoço e o ar saudável abria o apetite. Um galo de penas coloridas dava as boas vindas à “sala verde”, onde fizemos um pic-nic à beira da piscina.
Descansados e saciados, fomos agraciados com um inspirador momento de poesia de Camões e Cesário Verde, entre outros. Poemas de e para a natureza recitados de forma poética e agradável aos nossos ouvidos.

José do Canto era também um homem das letras e das artes em geral.
Respirava-se cultura, arte e bem-estar. Letras, desenhos e natureza. Um trio perfeito num dia perfeito num jardim maravilhoso. O jardim José do Canto. O “meu” jardim. O “nosso” jardim.  O jardim “pulmão e património “ da nossa cidade, da nossa ilha, do nosso arquipélago, do nosso mundo que se quer cada vez mais saudável e arborizado.
“A saudade nunca leva ao início do tempo”- diz o poeta. Com essa iniciativa senti saudade e consegui ir ao início do tempo.

Vivi o tempo passado, o tempo presente e o desejo de viver o tempo futuro.



Respirava-se cultura, arte e bem-estar. Letras, desenhos e natureza. Um trio perfeito num dia perfeito num jardim maravilhoso. O jardim José do Canto. O “meu” jardim. O “nosso” jardim.  O jardim “pulmão e património “ da nossa cidade, da nossa ilha, do nosso arquipélago, do nosso mundo que se quer cada vez mais saudável e arborizado.
“A saudade nunca leva ao início do tempo”- diz o poeta. Com essa iniciativa senti saudade e consegui ir ao início do tempo.
Vivi o tempo passado, o tempo presente e o desejo de viver o tempo futuro.


Desenhos: Pedro Arruda
Texto: Ana Cristina Arruda


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Festa do milho

Pico vermelho - Ajuda da Bretanha - festa do milho.
Lá para os lados da costa norte, numa freguesia vizinha do mar de janela aberta a uma paisagem deslumbrante, comemora -se por esses dias a festa do milho. Tendo como anfitrião o moinho do.pico vermelho o milho foi rei de festa. Iguarias deliciosas fizeram nos voltar ao tempo em que o milho fazia parte das refeições nas mesas das famílias acorianas. O arroz doce, o milho cozido, as malassadas e as papas de carolo fazem nos degustar de sabores únicos. Sinal dos tempos modernos e como o passado e o presente parecem querer andar de mãos dadas, lá se via também a juventude a preferir a " comida moderna" - pizza, bifanas coca cola etc. As crianças brincavam alegremente de roda do moinho, enquanto os mais vividos recordavam histórias do tempo em que as velas do moinho ainda trabalhavam. A música pimba animava a noite que com um cheirinho a outono vinha chegando depois do sol ir descansar escondido nos montes verdes deste recanto nortenho povoado de pessoas simples e amáveis na sua maneira de receber.
Que saibamos sempre apreciar aquilo que é nosso e genuíno e ter tempo para apreciar as coisas simples da vida. Ter tempo para viver o nosso tempo.

Ana Cristina Arruda
Desenho Pedro Arruda

segunda-feira, 15 de julho de 2019

51º Encontro USK Açores - Desenhar com Gonçalo Preto

A Terra encantada


A Ilha
Sempre a ilha
O verde, o azul….
Sempre o mesmo colorido
Os sons, os cheiros, os toques
Sempre os mesmos, encantadores….
Lagoas e mais lagoas…
Sempre lindas e puras como se fossem intocáveis
A melodia sinfónica
Sempre afinada
A brisa e o sol abrasador
Sempre lado a lado
Como bons companheiros
Sempre a mesma paz….
Sempre a mesma beleza….
Sempre o mesmo encanto.
Há quem a pinte
Há quem a fotografe
Há quem a escreva.
Sempre inspirados em ti
Mãe Natureza
Ilha encantada
Terra prometida
Paraíso na terra
Sempre aqui tão perto
Sempre a chamar por mim
Sempre a chamar por ti
Sempre a chamar por nós….
Sempre a escutar-me
Sempre a viver comigo (connosco)



Ana Cristina Zeferino Arruda